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IFIGÊNIA
Quando D. Ifigênia morreu foi um espanto. Toda a família levou um susto. A pobre Ifigênia, como a chamavam, na verdade, era uma bela fachada. Passara os últimos quarenta anos de vida de casa para a igreja e da igreja para casa. Quem chegasse, fosse que hora fosse, a encontrava de terço na mão, com aquele sorriso beatífico dos que vivem em comunhão constante com o lá de cima. Os mais pecadores corriam dela como o diabo da cruz Arre que suportar a velha era coisa só para santo mesmo. Ficara rabugenta com a idade. Na mocidade, diziam que tinha sido uma beldade. Não casara, ninguém sabia o porque. Desde que o pai morreu tinha morado sozinha e disso não abria mão. Quando Izilda, a irmã, ficou viúva, insistiu. Mas debalde. Efigênia gostava daquela vida solitária. Ao completar oitenta anos estava quase cega e surda; os sobrinhos tinham posto uma enfermeira mas era um Deus nos acuda. Nenhuma agüentava a velha. Morreu logo depois disso, para alívio geral.
Dela se sabia pouco. Mesmo para a família sua vida sempre fora trancada a sete chaves. Nas suas noites de bebedeira Odorico, o cunhado falecido, destravava a língua e gostava de lembrar da Ifigênia do passado. Dizia que era bonita, e que de santa não tinha nada. Virgem? Ele virava os olhos e ria. Mas ficava por ai. Isilda bem que tentava arrancar mais alguma coisa mas o marido se fechava em copas.
Agora que morreu, depois do corpo enterrado e a alma bem encomendada, os sobrinhos foram fazer o inventario dos guardados. Não demorou muito para acharem o baú, enfiado sob a cama. Foi preciso arrombar.
Lá dentro embrulhado em seda esgarçada e puída encontraram a verdadeira Ifigênia. Fotos e cartas, bilhetes, vestidos alegres e um perfume envelhecido e barato. Um diário carcomido e de há muito abandonado. Ali estava a historia toda. A historia de uma mulher fogosa que saia escondida todas as noites e ia dançar no cabaré mais distante. Fifi era o nome de guerra. Fifi, a dançarina mascarada. Tinha sido famosa, a cidade toda a conhecia. Tornara-se uma lenda. Dizia-se que entre as coxas roliças de Fifi estava o paraíso. Muito homem de família passou por ali e ela sempre se vestindo de encarnado e usando máscara de veludo negro. A lista de nomes no diário era infindável.
Um dia sumiu, nunca se soube o paradeiro. Desapareceu como veio, sem alarde.
Amarrado com fita dourada havia um maço de cartas e fotos. Todas de Odorico, o cunhado
vera do val
Escrito por inquieta às 22h44
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De corpo e copos
As garrafas vazias já se juntavam sobre a mesa cambaia do boteco. Juarez gorgolejava. Falava sozinho,murmurava, gemia ... Filha da puta...
Marinete estava lhe pondo chifres! Disso não podia fugir, fingir que não era com ele. Estava na cara. Só idiota não via que ela estava mudando. Antes era toda atenta, o dia todo em volta dele,servindo aqui e ali, cama e mesa, o feijão especial, temperado ao seu gosto, as camisas impecáveis , passadas a ferro com carinho. A noite então nem se fala, dor de cabeça não era com ela. Bastava ele dar uma fungada e ela se abria toda, rio-mulher, correndo ao seu encontro , mel nas profundezas. Gemia e gritava como ele gostava e se ele quisesse mais não se fazia de difícil.
Ele mandava e ela fazia.
De uns tempos para cá estava diferente. Andava distraída. Quando ele chegava, ao fim do dia, o sorriso dela lhe parecia um pouco falso, como se não estivesse a vontade. Isso quando estava em casa, por que na maioria das vezes ele chegava e nada dela.... Filha da puta...Tinha sempre uma história na ponta da língua. Hoje tinha se atrasado no trânsito, ontem foi o supermercado. E quando ele ia para a cama ela enrolava, sempre tinha ainda alguma coisa por fazer....Filha da puta...
Devia ser o vizinho. Pensavam que ele era idiota. Tinha percebido o telefonema dele e como ela ficou aflita. De olho viu quando ela anotou alguma coisa, um endereço talvez. A vagabunda iria se encontrar com amante e o corno era ele .... vadia...
O garçom , já preocupado , o aconselhou... Vai pra casa doutor... já bebeu demais... Ele nem ouviu já enfezado, falando sozinho...Vou meter uma bala na cabeça dele.... em mim é que não põe cornos...e acariciava o revólver guardado na cintura.
Na delegacia os colegas diziam que ele estava estranho. Onde o policial atento? Eles brincam com fogo...mais um, menos um não me faz a menor diferença... E pediu outra garrafa. Matava bandido e matava doutor também ...pouco me importa se é importante ou não ... que não me ponha cornos ... E ficava imaginando Marinete gemendo para o outro...
continua
Escrito por inquieta às 23h10
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conclusão
***
Marinete suspirou. O vizinho era gentil. Vinha sendo atencioso desde que se conheceram. E ela confiava nele. Todas as tardes ele a recebia no consultório. Sempre aconselhando... Diga a Juarez , Marinete,ele vai entender... A hora de contar a Juarez tinha chegado. Ela sabia que ele iria sofrer. Conhecia bem o marido, não ia se conformar com uma separação. Fechou os olhos imaginando a cena. Tanto tempo! Pobre Juarez...cinco anos de casamento...
***
O garçom já estava preocupado . Juarez era cliente antigo, sempre estava por ali, dava uma proteção ao bar a freqüência da policia. Mas hoje estava transtornado. Bebera demais e sozinho. Grunhia ameaçador. Viu quando se levantou cambaleando e se dirigiu a saída.
Mato o canalha... sem um ai...Engatou a marcha e saiu rangendo os pneus. Estava completamente bêbado e a arma lhe queimando o corpo. Depois haveria de se perguntar como conseguira chegar até o prédio onde o outro trabalhava.. Estacionou o carro ao meio fio e respirou fundo. Foi quando viu Marinete saindo apressada, cabisbaixa,dando até logo ao porteiro, já intima da casa....Cara de culpada ....a filha da puta...
Enquanto ela sumia na esquina ele desceu. Na porta foi sem perguntas, afinal o uniforme impunha respeito. O nome do calhorda estava lá, quarto andar, fulano de tal, médico. Entrou sem bater, fim de dia o doutor já não atendia mais. Estava sozinho. Olhou surpreso mas não teve tempo de esboçar um sorriso.
A bala lhe perfurou a testa.
***
Marinete preparou o jantar. Já não podia esconder a verdade de Juarez. Não sabia mais fingir e se sentia enfraquecer a cada dia. O doutor tinha razão. Era inevitável e ele sabia o que dizia, era sua especialidade. Tinha sido gentil, o mais que podia.
Mas nada nesse mundo poderia alterar o diagnostico. O câncer estava galopante, nem cirurgia resolveria mais.
vera do val
imagem - Dave Nitsche
Escrito por inquieta às 23h06
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Morreu Guillermo Cabrera Infante. Quem não leu - Havana para um infante defunto , - Tres tristes tigres ou - Delito por se dançar o cha cha cha , não sabe o que está perdendo. Um de meus escritores favoritos.
Assim Cabrera Infante descreveu La Estrella Rodriguez, que integra a trinca de protagonistas de seu romance Três tristes tigres, publicado em 1968 e ambientado nos últimos anos do governo Batista.
“Era uma mulata enorme, gorda gorda, de braços feito coxas e de coxas que pareciam dois troncos sustentando um tanque de água: o corpo.(…) Copo na mão, movendo-se à cadência da música, mexendo as cadeiras, o corpo todo de um jeito belo, não obsceno mas sexual e belamente, remexendo-se no ritmo, cantarolando por entre os lábios entumecidos, seus lábios grossos e roxos, no ritmo, agitando o corpo no ritmo, ritmicamente, belamente, artisticamente agora e o efeito geral era de uma beleza tão diferente, tão horrível que lamentei não ter levado a câmera para retratar aquele elefante que dançava balé, aquele hipopótamo na ponta dos pés, aquele edifício movido pela música (…) La Estrella só canta boleros, disse e acrescentou, canções doces, com sentimento, do coração aos lábios.”
Escrito por inquieta às 00h37
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O jumento de Ghizhou
(Liu Zongyuan – 773-819, China)
Não havia jumentos em Guizhou, até que alguém pôs um num barco e o transportou para lá. Porém, não sabendo bem o que fazer com ele, deixou-o solto nas montanhas. Um tigre, ao ver aquele bicho disforme, pensou que fosse um ser divino. Primeiro, bem escondido, observou-o atentamente. Depois ousou aproximar-se, mantendo ainda uma respeitável distância. Um dia o jumento zurrou. O tigre se assustou e, com medo de ser mordido, fugiu apavorado. Mas voltou para dar mais uma olhada e decidiu que a criatura, afinal, não era assim tão temível. Acostumando-se com os zurros, chegou mais perto. Já colado praticamente no outro, e agora tomando muitas liberdades, o tigre passou a azucrinar o jumento com repetidos avanços. Esse, enfim, perdendo a paciência, deu-lhe um coice. “Ah, pois então é só isso que ele consegue fazer”, pensou o tigre entusiasmado que, ato contínuo, pulou sobre o jumento, cravou-lhe os dentes no pescoço, devorou-o o quanto pôde e prosseguiu o caminho.
Pobre jumento! Seu tamanho lhe dava uma aparência de força, seu zurro inspirava medo. Caso ele não tivesse mostrado tudo de que era capaz, o tigre, apesar de tão feroz, provavelmente não teria se arriscado a atacá-lo. Mas tal foi, lamente-se, o intempestivo fim do jumento.
Cadernos da Bélgica - Leila Silva
Escrito por inquieta às 22h09
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VIAGEM AOS SEIOS DA REFORMA DA PREVIDÊNCIA.
Lembrei-me do conto A morte da porta-estandarte, de Aníbal Machado, quando assistia o desfile das Escolas de Samba. Passados alguns dias do carnaval, reli-o. Aníbal Machado bem conhecia o seu ofício de escritor, sabendo, como poucos, admiravelmente combinar idéias e palavras. Além do citado conto, reli outros do autor: Tati, a garota e Viagem aos seios de Duília - bons-bocados da literatura brasileira. Viagem aos seios de Duília gira em torno do drama de Zé Maria, um funcionário que acabou de se aposentar após ter dedicado décadas de sua vida ao trabalho em uma repartição pública. Uma vez liberto da rotina, Zé Maria, solteiro, austero e introvertido, fica sem saber como ocupar o tempo e não demora muito para ser invadido pela angústia da solidão. Tenta reagir. Encosta o terno e o chapéu, muda o visual, toma umas aulas de danças e freqüenta festinhas. Tudo em vão. Como o personagem central do romance "O Estrangeiro", de Albert Camus, as coisas ao seu redor não fazem sentido. Sua crise depressiva só é minorada na medida em que Duília cresce na sua imaginação. Zé Maria encontra lenitivo em uma fantasia que sua solidão vai acalentando. Sonha em viajar à sua cidade natal, no interior de Minas Gerais, de onde adolescente saíra, não mais voltando. Ele alimenta a secreta esperança de, regressando, reencontrar Duília e, com ela, refazer o sentido da vida. Concretamente, de Duília, Zé Maria sabia pouco mais do que o nome. Flertara com a jovem durante um ritual religioso e ela se aproximara dele e, inesperadamente, num relance, lhe mostrara os seios. Dias depois ele viera com os pais para o Rio de Janeiro. Isto há cerca de quarenta anos. E era só. Movido pela louca esperança do reencontro, Zé Maria coloca os pés na estrada. A medida em que Aníbal Machado vai habilmente construindo o drama do funcionário aposentado vai se reportando a aspectos da cultura do Rio de Janeiro e de Minas Gerais nos anos 40, que servem com pano de fundo da estória. Após vivenciar muitas peripécias o quixotesco Zé Maria encontra Duília, ou melhor, encontra Dona Dudu, uma viúva bastante envelhecida e pobre, lecionando em uma Escola Primária. O encontro dos dois é patético. Eles só conseguem murmurar palavras vagas e meio desconexas. Não sabendo explicar direito o que viera fazer ali, entre perplexo e aturdido, Zé Maria se retira envergonhado. Os soluços de Dona Dudu cortam o silencio de um roceiro anoitecer. Reler o conto de Aníbal Machado cerca de 60 anos após ele ter sido produzido me levou a viajar no tempo e a estabelecer algumas comparações entre a época que foi escrito e a atual. Pode se dizer que a contínua expansão das relações de produção capitalistas ao longo da segunda metade do século XX não trouxe boa nova para o bolso dos brasileiros - para o bolso dos brasileiros que dão duro, é claro. A inflação galopou e o desemprego também. Os salários mantiveram-se tendencialmente em queda, com acentuada perda do poder aquisitivo por parte dos trabalhadores em geral. Uma das frações da classe assalariada que mais teve a sua condição de sobrevivência material aviltada entre meados do século XX e o alvorecer do novo milênio foi a dos servidores públicos, pois a medida em que o olho gordo do capital alienígena foi crescendo em cima das mais lucrativas empresas estatais do país, o serviço público foi sendo deteriorado por governos capachos e, em conseqüência, as aposentadorias e os salários dos servidores foram descendo a ladeira. É nesses sentido que se pode afirmar que os muitos "Zes Marias" - os servidores públicos da vida real - que estão se aposentando em 2003, tem problemas bem diversos do personagem de Aníbal Machado, o Zé Maria, funcionário público que pendurou as chuteiras na década de 40. Esse, uma vez aposentado, teve recursos materiais suficientes para poder partir em busca dos decadentes seios de amada da puberdade. Os primeiros, há oito anos sem ver a cara de um mero reajuste salarial, correm para se aposentar, antes que a anunciada reforma da previdência os empobreçam mais ainda.
Aluizio Alves Filho
Escrito por inquieta às 00h02
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Conto Noturno
Poderia não ser desse jeito. Poderia ser outro meu destino, minha tarefa de mestre-de-cerimônias num ritual que conheço de cor. O pensamento me passa rápido, é só um flash espocando sobre nossos corpos que já começam a arfar, Peter e eu ajoelhados, ele meio arrancando meio rasgando o vestido que se cola em mim como uma segunda pele e resiste em curvas e reentrâncias. Mas não, assim não, protesto, afastando-lhe a mão e obrigando-o a deitar-se de costas no carpete branco e macio, nesta brancura que me envolve vinda de paredes, sofás, até dos quadros com suas pinceladas mínimas de cinzas e azuis e rosas evidenciando ainda mais esta sala inacreditavelmente clara a emoldurar nossas silhuetas enlouquecidas. Meu vestido é agora uma mancha de sangue no chão, ao lado, enquanto vou deslizando sobre Peter -- chamo-o de Peter sem saber como chamá-lo, com seus cabelos de trigo e pálidos olhos azuis postos em mim baços de desejo, as mãos ensaiando o gesto de alçar-se e segurar meus seios. Não deixo. Prendendo-lhe os quadris com força entre minhas coxas, balanço um pouco, ondulo, faço com que sinta a maciez de minhas nádegas achatando-lhe o sexo, empurrando, luta ferrenha entre carne e rigidez que busca seu natural destino. Ergo lentamente os braços, no caminho levantando os cabelos, que ele me coma primeiro com os olhos, que veja bem os mamilos rijos apontando para seu rosto, depois me inclino para a frente e brinco, esfregando-lhe ora um ora outro seio nos lábios, mas não permitindo nunca que dentes me prendam, que a língua ávida toque a carne. Rebolo mais, ele geme, então concedo e me arrasto para trás, para que perceba meus líquidos, para que se umedeça em minha fonte e também para que seu pênis massageie cada centímetro de meu sexo incandescente. Ainda não quero a penetração. Acaricio-o, empunho sua arma orgulhosa, manuseio-a, e vou me afastando mais, deixando que agora meus seios substituam as mãos, e é ali, no regaço de meu busto, que mais entendo a urgência de um homem, a luta titânica para adiar um prazer que não posso desperdiçar. Seu jorro poderia vir neste exato instante, penso, escorrendo em minha pele, atingindo-me a boca, o pescoço, os cabelos. Eu depois espalharia lentamente cada gota de sêmen pela face, me lambuzaria de sexo, desceria as mãos pela barriga, pelo púbis e iria untar desse modo o clítoris ante o sôfrego olhar de Peter. Poderia ser assim. Mas então Peter teria uma história a contar amanhã, o alvorecer viria surpreender-me enrodilhada em seus braços neste apartamento branco com toques leves em tons pastel e nada mais haveria a fazer e ele seria outro qualquer, não Peter, não este que me escolheu esta noite e que por isso foi por mim escolhido. Não. Endireito-me, torno a sentar-me em sua barriga, dou-lhe tempo de se refazer, sorrio e estendo o braço para o esquecido drinque na mesinha. Ai, ele suspira, a mão em minha coxa, traçando a firmeza do músculo que ainda o imobiliza. Não faça assim, não me enlouqueça, doçura. Ele ainda não provou meu gosto, não suspeita que se equivoca.
continua
Escrito por inquieta às 19h37
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conclusão
Balanço de novo os cabelos, sei o efeito que esta minha flamejante cabeleira causa, o fogo que acende quando se reflete em meus olhos verdes. Finjo que beberico o uísque, rebolo, traço uma trilha úmida agora para a frente, em seu peito bronzeado de sol tornando-me ainda mais translúcida. Ele cerra os olhos, geme, mas já rompi a trégua, apoio os joelhos em ambos os lados de sua cabeça e desço. Agora faço uma lenta dança do ventre, para frente e para trás, para frente e para trás, é seu rosto que vou fodendo, seus lábios, a língua incerta que ainda não achou o compasso. Lamba, depressa, assim, isso, ahnnn. Com uma das mãos para trás tateio, quero retribuir, ali é , impossivelmente rijo, impossivelmente aço. Correnteza de pura delícia, Peter agora alterna entre açoite e roçar de asas, lábios e dentes. Me imobilizo um segundo, aqui, vê?, pode morder um pouquinho, chupar, enfie a língua agora, tire, e sublinho as palavras com o pulsar de meus dedos da glande até a raiz. De novo se aproxima o momento da lava, mas não, segure, prolongue, como se possuísse só este instante e nenhum outro, nunca mais, contenha-se, respire, nenhuma gota podería seperder, nenhuma gota, pois cada uma será amanhã uma batida de meu coração. Você não sabe, Peter, nem saberá. Por isso tem de chegar ainda mais alto, ainda mais fundo, ainda mais intenso para perder-se num delírio do qual não verá o fim.Por isso venha agora, me acaricie, lamba meu corpo inteiro, coma, explore. Caio ao lado e puxo seus braços, aceito seu pênis tateando meu rosto o pescoço os seios o umbigo o púbis as coxas. Aceito quando me deita de bruços e repete a trilha da nuca ao estreito caminho entre nádegas, permito que espie o ânus e busque o outro ninho, que chegue até o limiar e se agite na urgência de irromper num recinto que por enquanto é apenas alvo, sonho, objeto de um desejo que incha como um animal alucinado. Não fico passiva, ajudo, numa louca coreografia me tornando serpente e cavalo bravio, corcoveando e ondulando, e não grito quando seus dentes se cravam em minha nuca, túmida projeção do que virá logo mais, a criatura se contorcendo dentro da criatura, meu semelhante, meu irmão, meu outro que habita todo ser humano. Ele entrou em meu jogo, e as espirais vão acontecendo, elipses, rotação, em que chegamos perto e nos afastamos do descontrole total. Sim, me foda, me trepe, me sinta, realize cada fantasia, Peter, você a quem chamo de Peter na falta de um nome para sua face de dono-do-mundo. Você que me trouxe para este apartamento em sua Mercedes prateada, desfiando histórias galantes e de antemão se congratulando pela boa sorte de mais uma conquista, mais uma noite a arquivar na galeria de eventos extraordinários. Enquanto isso eu sorria e fingia não ver os dedos casualmente pousados em meu joelho, sorria acompanhando o fio de seus pensamentos, sorria como agora, neste momento em que você, com sua impaciência, enfia as mãos por debaixo de minha barriga e me puxa, você quer ir até o fim, já não suporta mais, e se mostra até um pouco desajeitado, sei que preciso de novo agarrá-lo pelos cabelos e tirá-lo do rodamoinho, e então escapo, deixo-o até arfante abraçando o nada, ainda num ritmo que não pára de crescer. Respiro também, de olhos fechados vou incursionando por cada uma de minhas veias, sentindo o tamborilar que se enfraquece nas têmporas, quase sem perceber toco dois dedos no pescoço e sei então que tenho poucos minutos, talvez segundos, e me agito inteira, a força poderosa se irradiando do útero, percorrendo fibras, aquecendo de antecipação, latejando na vagina enquanto Peter me olha, de joelhos outra vez, o pênis teso que aponta o inacreditável teto de vidro por onde poderíamos ver as constelações se São Paulo ainda mostrasse suas estrelas. Com gestos de gato vou chegando, abraço-o, mordo-lhe a orelha, umedeço de saliva o pescoço, subo com a boca e prendo nos dentes seu lábio inferior, sufoco seus gemidos com um beijo e o empurro de novo para trás. Não precisamos de mãos desta vez, sinto a glande e depois o resto de seu pênis se regozijando em meu túnel estreito, sinto quando me toca no fundo e como parece pulsar a cada movimento meu em que subo e desço cavalgando este homem que é agora meu homem, meu supremo prazer, este homem que viverá em mim por toda a eternidade. Nossa cadência torna-se única, e se acelera, se agita, se recompõe com nossos gritos misturados, nossos sussurros, nossas frases de sim, agora sim, vai fundo, quero mais, você é; incrível doçura, quase nunca, há quanto tempo, mais, ai como você sabe foder minha linda e de repente quero que se cale, que não empane este ritual que não precisaria ser assim, que poderia não ser o último para você, como você não precisaria ser este Peter que me escolheu e que por isso foi por mim escolhido para alimentar esta minha sede, esta minha fome, este avassalador momento em que atingimos o orgasmo e te sufoco o berro de macho porque acabei de cravar os dentes em tua jugular e estou e bebendo o sangue, deixando que teu sangue e não teu sêmen me inunde o rosto, o pescoço, os seios, uma orgia de morte para que eu possa continuar vivendo minha vida de noturna criatura das sombras.
Lizete Mercadante – O CAIXOTE
Imagem - Berdak
Escrito por inquieta às 19h35
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Rodamundo
Maldito nome esse que lhe dava cócegas nos pés, o homem não tinha pouso nem destino. Por um bom tempo ele canoara pelo rio, indo de vila em vila. Aqui, pescava um pouco, estendia a rede sob uma árvore qualquer e deixava o tempo passar, ali , amasiava uns tempos, emprenhava as índias e quando a vida começava a uivar na veia, recolhia os trens e se metia no mato. De onça não tinha medo, aprendera a conversar com elas; se respeitavam, olho no olho,cada um para o seu lado, que ele não era abestado e a fera sabia disso; de homem ele desviava, que bicho traiçoeiro, ninguém lhe ordenava os cornos, mas sempre melhor evitar.
Era espadaúdo e de cabelos encaracolados. Cabecinha de anjo, dizia D Dodó, encacheando o filho pra missa quando pequeno. Mal se lembrava do rosto dela, tantos anos de andança, e do pai só lembrava da lida, das costas riscadas brilhando ao sol, dos braços retesados puxando a rede.
Até onde sua memória alcançava via o casebre pequeno reluzindo de limpo, a mãe com suas ervas, do gosto horrível do boldo que curava tudo, dos irmãos mais velhos chegando da pesca ou das noitadas de taberna, arreliados, de pernas bambas enchendo a casa de alvoroço. Homens feitos, sem medo de nada, mangando dele, menino assombrado, de boca aberta, sonhando. Quando o rio os levou, sem aviso e sem pena, ele viu a mãe estatelada , olhar perdido e a lágrima envergonhada do pai. Se escondeu no mato,não queria que o vissem chorar, e ali, sozinho pranteou e enterrou os manos sem nunca mais falar disso.
Crescera assim meio desordenado. A professora desistira logo de enfiar alguma coisa na sua cabeça. Gostava era dos bichos, se perdia horas pelo igarapé arrulhando com sanhaço, conversando com mambuia e desvirando tartaruga.
Quando ia até a cidade olhava tudo curioso. Costumava acompanhar o pai até o mercado, mas o deslumbramento mesmo era a loja do velho Nabor, aquela lindeza cheia de prateleiras altas e escuras onde achava de um tudo, facas reluzentes, anzóis de peixe grande, canivetes, cordas e cordas que não acabavam mais. O menino encafuava pelos cantos, não queria nada, só olhar perdido aquela quinquilharia toda. Se o pai não atentasse ele ficaria por ali, esquecido, passando o dedo pelo fio da faca ou olhando abismado a bússola pequena, em um estojo aveludado que o velho Nabor tinha na vitrine central. Sonhava com aquilo noite e dia.Uma tarde, o velho, vendo o namorar do menino, resolveu lhe mostrar o que era. O curumim maravilhou. O ponteiro balançando siderou a cabeça dele, boca aberta, Nabor explicou das noites sem estrelas guia, da floresta fechada e do ponteirinho ali, igual anjo da guarda mostrando o rumo e a sorte.
continua
Escrito por inquieta às 16h36
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conclusão
Daquele dia em diante ele só queria uma coisa: aquela preciosidade. Levantava cedinho e a mãe pensava que ia pra escola, mas o menino andava estrada a fora e ia dar no porto, aceitando qualquer tipo de trabalho. Gemia sob o peso das caixas enormes, levava recado para a casa da Sarará, fazia entrega no comércio da rua e juntava seus trocados.
Depois de um bom tempo nessa vida ele tinha o dinheiro para a bússola. Foi até o velho Nabor e quase rezando, como quem pede a hóstia sagrada , pediu a coisa, deixou as notas amassadas e saiu pisando leve como quem leva o Graal. Tremia muito quando se enfiou na mata e sob a árvore favorita abriu o estojo. Ela estava lá , brilhando igual estrela e tremulando como se tocada pela aragem. O dia foi curto para os sonhos dele. Andava por ali, seguindo o ponteiro, foi entendendo tudo, e foi bem ai, nessa hora, que o comichão no pé começou. Vontade de seguir andando perfurar a floresta, subir o rio, domar o mundo. Já era uma latagão de 15 anos, estava na hora de decidir o caminho. Medo ele não tinha que bicho e peixe era amigo íntimo, a coisa toda eram os pais, começando a envelhecer, e ele filho único.
O tempo foi passando e ele inquieto, mãe a pai, pai e mãe, aquela coisa que entranha na gente, amor dividido, a cabeça voando mundo afora e o coração preso na rede. Quando saia, com o pai, para pesca o comichão vinha forte , ele embrenhava os olhos naquela imensidão de água, no verde das margens, sentia febre e quase se atirava canoa abaixo para mergulhar sem volta e internar no mundo.
O pai só olhava, conhecia aquilo, lembrava de quando sonhava também com as águas negras e com o piar da floresta. Sabia que era só uma questão de tempo, mais dia menos dia o filho ia voar e ele não podia fazer nada. No seu tempo, o que o segurara tinha sido a Dodó , com seu requebro dengoso e a voz de corruíra, o rio lhe dissera que ficasse por ali, era seu lugar, fincasse as pernas nas margens e pendurasse a rede grande no oiti. Ele ficara, e não se arrependia. Mas entendia o filho, sabia do comichão, desde que lhe dera o nome de Rodamundo, nome que o rio escolhera, ele sabia da sina e do destino.
Um dia resolveu arrumar a canoa dos manos, abandonada no quintal, que Dodó não tinha deixado o velho se desfazer dela. Começou a lixar, remendar e fez um serviço tão bem feito que quando acabou a pintura ninguém diria que aquela canoinha era velha, tão galante e tão vermelha, parecia moça faceira pedindo beijo. A mãe sabia, ela sentia que estava por pouco, que ia perder para o Rio, que quando ele chamava não queria ficar sem resposta sabia que era a maldição do nome, a madrinha avisara, mas sabia também que o destino está escrito e que com ele não adianta arengar. Suspirava e rezava para São José guiar o filho, fazia novena, ameaçava o santo.
A decisão veio um anoitecer em que se banhava no Negro, a água fria lhe bulindo o corpo qual cunhã enluarada, lhe fazendo a cabeça a roda, e o pé coçar igual sarna de cachorro velho.
Aquela noite ficou mais calado que o costume, olhava os pais com um olho manso, olho que abraçava sem saber , que ele não era dessas coisas, olho que pedia perdão e que dizia adeus. Antes do sol aparecer ele estava pondo seus trens na canoa, a bússola preciosa luzindo no estojo , enrolada em um plástico, cuidadoso, enfiada no bolso mais escondido e seguro. Ali também estava uma foto da primeira comunhão, a única que ele tinha tirado nessa vida, onde a mãe aparecia vestida de domingo, toda enfatuada. Seus dois tesouros! Trazia a tralha de pesca ordenada , o pouco que tinha em um embornal surrado e era só.
Saiu mansinho, sem adeus nem choro, embora tivesse um nó no peito e um cisco no olho, mas lá se foi arredando os sustos e metendo a cara no mundo. Mundo grande, mundo do rio, mundo das águas negras, do sol amarelo luzindo e ardendo na pele, da floresta sombreada e acolhedora como corpo de mulher. Isso tudo entrou nas suas veias, pipocou pelo corpo, o acendendo todo, e rodopiou na cabeça lhe dando força no remo e fogo nas pernas.
Foi assim que tudo começou, Rodamundo roda mundo, vai sem pressa de olho bem aberto, sem sossego, vai sem rumo , vai e cumpre a sina do nome.
vera do val
Imagem- M. Chagall
Escrito por inquieta às 16h35
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Jogos de guerra
Campo devastado, muito frio. Neve já enterrando os cadáveres. Ainda, aqui e ali, um gemido. Crianças começam a chegar descendo pela colina e, enroladas em agasalhos esfarrapados, vagam pelas crateras. Aves escuras, atraídas pelo cheiro adocicado da morte mancham a brancura do céu. Meninas reviram os corpos, tiram capotes, botas,procuram nos bolsos. Conversam e riem. Tudo vale ouro. Meninos apanham armas ainda sangrentas. Arrancam baionetas de corpos crispados.
Um deles chuta um capacete caído, o outro repica.
As meninas batem palmas.
Risos em campo de morte.
Vera do Val
Escrito por inquieta às 21h01
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As estrelas, As galáxias, o Universo
Quando a gente está sozinha em casa, todos os barulhos são importantes.
Os móveis rangem, o tapete ganha vida, os pingentes do lustre estalam perversamente.
O silencio é povoado de sons e no momento que a campainha tocou foi como se uma bomba explodisse dentro do meu ouvido. Levantei-me num choque e fui atender ao chamado.
Antes, espiei pela janelinha:
Lá estava eu, do outro lado, aguardando que a porta se abrisse.
Procurei me acalmar e usei um ardil.
“Quem é?”
Mas eu não me intimidava e respondi que era Antonio, o porteiro.
Não tive remédio senão abrir a porta.
Continuando o plano anterior, fingi não ter me reconhecido.
O pretexto era banal: a água iria ser fechada por uma hora para consertos no prédio.
Desprezei a falta de imaginação e também representei meu papel. Agradeci e fechei a porta delicadamente.
Então era assim.
Corri até o banheiro e olhei minha imagem refletida no grande espelho sobre a pia. No cristal eu estava obediente e senhora de mim. Seguia meus movimentos com precisão. Ali fôra capturada e permanecia tranqüilamente às minhas ordens.
Fiz mais alguns movimentos, todos repetidos simetricamente pelo meu inverso. Tranqüilizada, voltei ao trabalho e aos ruídos familiares do meu silêncio interior.
Na hora do almoço, a dúvida me assaltou: quando passasse pela portaria será que eu estaria lá, fingindo ser o porteiro-chefe?
Havia um meio de descobrir.
continua
Escrito por inquieta às 17h48
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conclusão
Desci e lá estava eu sentada no banquinho ao lado do portão.
Procurei não dar importância e saí calmamente para o restaurante onde fazia as refeições.
Quando o garçom chegou, foi preciso usar astúcia novamente: o garçom também era eu.
Disfarcei e olhei para os lados: os fregueses, sentados nas mesas ao redor, todos eram eu e fingiam não me reconhecer.
Resolvi agir como eles e continuei nossa comédia. Escolhi os pratos, almocei, paguei a conta e saí, como se nada de estranho tivesse acontecido.
Na calçada, entre um e outro transeunte, eu me avistava a andar apressado.
O jornaleiro era eu e nos cumprimentamos indiferentes.
Passeava pela rua e nos meninos que brincavam com a bola, na garota de bicicleta, na jovem de mini-saia, em muitos me reconhecia, mas já não importava.
Todas as pessoas, aos poucos, rapidamente, cada vez mais depressa, iam se tornando meu espelho.
E vagavam, separadas de mim, em corpos que eu não controlava.
As lojas eram eu.
Cada tijolo e pedra da calçada também eram meu outro.
E eu era as árvores e os telhados. O céu era eu e as estrelas que brilhavam sobre minha cabeça. E eu era o Sistema Solar, era a Galáxia e o Universo.
Eu era tudo e, então, finalmente, era Ninguém.
Maria Helena Bandeira
Imagem – Angerer der Altere
Escrito por inquieta às 17h46
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O Violoncelo
Por toda a vida ela tinha sido uma mulher decidida. De uns tempos para cá, divagava. Perdia-se pelos cantos entre sopros e sussurros, trazia os olhos sonhadores. Durante as tardes desaparecia, debalde se procuraria por ela. Quando na casa ecoava o silêncio , ela ia para a sala de música, fechava a porta e cerrava as pesadas cortinas. Naquele mundo fantasmagórico, mergulhado na obscuridade, se aproximava, reverente, do grande estojo escuro. Pé ante pé, com delicadeza infinita, abria a caixa e, embevecida, o contemplava. O violoncelo lá estava, luzidio e impassível, deitado no veludo negro.
Cuidadosamente ela o trazia para si e o abraçava. O rosto o acariciava, docemente, e a mão, empunhando o arco, muito suave, ia escorregando pelas cordas fazendo com que ele gemesse. As notas chorosas do concerto se derramavam, e ela começava a suspirar bemóis estremecidos e abafados. De olhos cerrados ia subindo as sedas da saia, enquanto o prendia cada vez mais entre as pernas enlaçadas até envolvê-lo, como se o engolisse, e a madeira rija começasse a lhe roçar o sexo umedecido. Ali ela se deixava ficar, lânguida e rítmica, se movendo, ofegante, na cadencia de Vivaldi. Quando, súbito, ele mergulhava em um pizzicato gorgolejante os dedos hábeis dela lhe procuravam os segredos mais íntimos, insinuavam-se nas texturas tesas, dedilhando as cordas duras e tensas, como se dedilha um macho preso ao meio do corpo. Ofegando, em um crescendo desvairado, entre alegros e adágios, eles chegavam, juntos, a um grito final.
Vera do Val
Escrito por inquieta às 23h38
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LIÇÂO DE CASA
Ela chegou iluminada. Cheirava a pecado e não era daqueles pequeninos, mas rombudos. Toda trêmula de susto e de tesão, a culpa escorrendo pelos poros como mel.
A gente bebia as palavras do errado com delícia.
E o não devido, o proibido se tornava para nós como elixir suculento e sorvíamos as palavras, a serpente subindo pelas pernas, um calor afogueando os braços nus.
Era verão ainda por cima, o inferno parecia mais próximo da pecadora e como queríamos arder também no caldeirão!
Ela falava, o peito arfando, a voz velada de desejo, o medo percorrendo o cio.
Nós escutávamos com os dedos trêmulos, sorvíamos a história alheia com volúpia. Era nossa guia no caminho da transgressão e ouvíamos caladas, vivendo seus meandros, esperando um desfecho que nunca vinha, um castigo temido e ansiado para afastar aquela idéia perniciosa de que era possível ser feliz errando.
Os corpos suados de meninas esperavam cada minuto do relato com o coração suspenso. E ela nos guiava pelos igarapés do erro com certezas sábias de paixão. Nossa lanterna no rio escuro do desejo era a carne trêmula e o olho aceso dela conduzindo o barco.
Temíamos o naufrágio? Sim, temíamos. Mas parecia tão forte estar ali ouvindo o despenhadeiro, percebendo o eco da garganta perigosa que nos esperava. E escutávamos tensas de safadeza, lânguidas de culpa, o mal-feito alheio.
Quando os adultos chegaram, desfazendo o encanto, cada uma de nós já se tornara, irremediavelmente, uma rebelde mentirosa.
E sabíamos, para o resto da vida, que o pecado tem seu mérito.
Maria Helena Bandeira
Imagem - Cornes
Escrito por inquieta às 01h17
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Bonitezas
(m)otimístico
(...e)
se. não. houver amanhã
pra alma. será feriado
Escrito por inquieta às 12h05
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Fidelidade
Você pergunta o que eu acho - e o que eu acho é diferente do que eu sinto. Eu sinto ciúmes, como todo mundo. Ciúmes e ímpetos homicidas, se você quer saber. Mas o que eu acho é que fidelidade é algo que se dá, mas não se pede. O único critério para exercê-la é a satisfação. Se você está satisfeito, por que se martirizar com questões desse tipo? Não faz sentido. Também não queira transformar em norma para o outro o que é uma regra imposta a você por seu próprio corpo saciado. Nem sequer se interrogue se ou por que você é suficiente para o outro. Reciprocidade é um termo bancário, antipático e injusto: o amor é sempre desigual. Claro, na paixão, tudo coincide. Mas quem quer o amor precisa ser mais flexível.
Portanto, guarde bem isto, anote, se precisar, escreva na carne com gilete: fidelidade não se pede, só se dá. Ou não. Quem dá, não conta vantagem. Quem não recebe, faz vista grossa. O outro, por mais que venhamos a amá-lo, é sempre um mistério - até para si mesmo. Insondável criptograma que se decifra com paciência e sorte. Deixe-o ser e se deixe encantar por quem te seduz. Ou se desencante de vez. Mas, como sempre, você está sozinho.
Acho que o primeiro ditado que toda criança aprende é: "Os incomodados que se mudem". Como era difícil ter de se resignar à idéia de um limite - e, mais difícil ainda, aprender a não deixar que a situação chegasse ao ponto de ter de escolher o gesto extremo de ou sair, premido pelo orgulho, ou deixar-se ficar, amargurado pela rendição.
A idéia de que a vida amorosa é um toma-lá-dá-cá incessante e justo é uma metáfora mercantil e burra que nem traduz a vida, marcada pela desigualdade, nem a economia, marcada pelo lucro. Mesmo a idealização de um "socialismo" que produzisse essa igualdade, já descobrimos, nós adultos do século passado, termina sempre em tirania. Para não insistirmos no mau gosto das associações econômicas, encerremos com a velha máxima: "De cada segundo suas possibilidades e a cada segundo suas necessidades". Enfim, dar sem exigir em troca é o que ensinam as melhores filosofias. Difícil é. Mas não há outro modo de ser feliz.
E não pense que assim estará garantida uma tranqüilizadora cegueira. A satisfação é um critério implacável. Silencioso e obstinado como os gatos. O infiel é, por exigência da Física, um ausente: ninguém pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Logo, o acúmulo dessas ausências, somado ao peso das mentiras que tentarão justificá-las, será tamanho que não haverá mais satisfação.
Até mesmo o perdão se tornará inútil: você perdoa, mas o bloco de ausências e mentiras está lá, antimatéria de ação imediata e incessante. É o fim: a satisfação nunca mais será completa e, pior, na economia do amor, ela nunca mais será suficiente. Olhar aquele rosto, esculpido agora em um bloco de ausência e mentira, produz um desencanto que gozo nenhum é capaz de apagar. É o fim. Mas também o fim tem suas máximas e rituais quase sagrados.
Antonio Caetano – Crônicas de amor e perplexidade – CAFÉ IMPRESSO
Escrito por inquieta às 22h51
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