Histórico
 01/05/2006 a 31/05/2006
 01/04/2006 a 30/04/2006
 01/03/2006 a 31/03/2006
 01/02/2006 a 28/02/2006
 01/01/2006 a 31/01/2006
 01/12/2005 a 31/12/2005
 01/11/2005 a 30/11/2005
 01/10/2005 a 31/10/2005
 01/09/2005 a 30/09/2005
 01/08/2005 a 31/08/2005
 01/07/2005 a 31/07/2005
 01/06/2005 a 30/06/2005
 01/05/2005 a 31/05/2005
 01/04/2005 a 30/04/2005
 01/03/2005 a 31/03/2005
 01/02/2005 a 28/02/2005
 01/01/2005 a 31/01/2005
 01/12/2004 a 31/12/2004
 01/11/2004 a 30/11/2004
 01/10/2004 a 31/10/2004
 01/09/2004 a 30/09/2004
 01/08/2004 a 31/08/2004


Outros sites
 Rio Negro-Fotoblog
 Rosebud- decoração
 Cronópios
  Café Impresso
  Revista O CAIXOTE
  Abrupto
 Sarapalha
  No Arame
  BrancoLeone
  Ideias em desalinho
 Anjos de Prata
 Cadernos da Bélgica
 Blog do ORDISI
 Rafael Duarte
 Brasuca Blog
 Blog do Conto
 Che Caribe
 Jus Sperniandi
 Kayuá
 Almas Inquietas
 Agrestino
 Ri, coração!
 Officina do Pensamento
 Dias com Árvores
 Ovo azul turquesa
 Contando Causos
 Casa de paragens
 Porcas e Parafusos
 Olhos do Sol
 A sétima letra
 Marcelino Costa
 Rapidinhas da OE
 Tente outra vez
 Umbigo do Sonho
 C. Bruni
 Batatada Patética
 Beto Muniz
  Verdes Trigos
 H Gasolim
 Taqui Pra Ti


 
Rosebud
 

 

Um dia junto os cacos

e corto os pulsos.

Um dia queimo os sonhos

e nego tudo.

Um dia mato um rico.

Muito puto.

Um dia deixo de lado

esses escrúpulos....

 

* * *

 

Ó primavera insubmissa

que pernoitas no deserto

decerto que não percebes

a mágoa que nos aflige:

este verão miserável

circunscrito em seu casulo

de nódoa sujou o nicho

reduplicando a carência

agora resseca os campos

o gado a gente as primícias.

 

Vem logo ao nosso encontro

Ó primavera sem vísceras.

(carajo)

 

Simão Pessoa – Poeta amazonense.



 Escrito por inquieta/vera do val às 21h58 [ ] [ envie esta mensagem ]



Tudo ocupado


No closet não tinha mais espaço, no armário da cozinha também não, e tampouco no quarto de empregada. Olhou o baú com as roupas dos meninos: cheio. Sob a pia do banheiro não cabia um só suspiro. O sótão, o porão, tão repletos quanto o estômago depois da feijoada. Lembrou-se do cofre, resgatou a senha dos abismos da memória, e o descobriu igualmente ocupado.

As crianças se multiplicavam atrás de cada porta. Sem ter onde enfiar o corpo do marido, Joana deu o último tiro em sua própria cabeça.

Agora nem no meio da sala tem espaço.

 

Flávio Moutinho



 Escrito por inquieta/vera do val às 22h45 [ ] [ envie esta mensagem ]



Sexta feira

 

A lua já está alta, estou parado nesse ponto há mais de duas horas.

Não costumo fazer isso. Sei que pode dar em uma puta cagada, se for pego ou der algo errado. Mas hoje. Não sei por que hoje, eu preciso. Estive irrequieto o dia inteiro. É sexta-feira e não tenho ainda noção do que vou fazer.

Passei a noite anterior acordado. As coisas estavam crescendo na minha cabeça de forma desordenada e nunca senti um conflito tão forte como o que estou sentindo. Que merda! Quanto tempo ainda tenho que esperar? Esse filho da puta disse que traria em meia hora e já passou tempo demais. Deve ter acontecido algum problema.

Não sei como não fiquei louco ontem. Quando não agüentava mais a luz da sala, fui pro quarto e tentei dormir. O escuro é engraçado. Dá a impressão que vejo vultos, imagens distorcidas. Estou ficando louco... Não dá pra ver nada no escuro! Talvez essas imagens existam sim, mas dentro da minha cabeça.

Cacete! Que demora...

Nossa! Esqueci de avisar o Ronaldo que o carro dele tá com problema. Ah! Também foda-se, não sou empregado de irmão. Estou cansado! Cansado de ficar fazendo favor e sendo usado pelos outros. Quando preciso de algo não arrumo um cristão pra me ajudar. Estou sempre sozinho.

Tô ficando louco com essa demora. O que será que aconteceu. Acho melhor eu ir embora, porque se deu algum problema, vai sobrar pra mim. Mas eu preciso! Hoje eu preciso! Tenho que dar um tirinho hoje de qualquer maneira. Isso que da confiar em preto! Filho da puta vai me foder. Nunca tive nessa quebrada, numa dessas, os caras me fecham aqui.

Porra, tô muito exagerado. Já fui em lugar muito pior. Lembro do dia que subi o morro do São Bento e começou um tiroteio. Caralho eu me caguei todo. Acabei numa trilha dos caras e fui parar no túnel. Aquele dia jurei pra mim mesmo que nunca mais ia chegar perto de pó! Só me enganei. Acho que nunca mais vou me livrar disso. Eu nem gosto. Fico nervoso, falo pra cacete, fico chato demais... Nossa! Que vida é essa? Se bem que tem seu lado bom, eu fico sempre mais ativo, trabalho melhor; conheci umas doidas que gostam da coisa, trepei muito! Essas mulheres fazem qualquer coisa pra dar um tirinho. Outro dia eu lembro que a safada da Lidiane foi lá em casa, veio com um papo de aranha pra cima de mim, não andava nem desandava a conversa. Saquei logo! Já fui dizendo... Quer esticar umazinha? A mina abriu direto! Só que disse na cara! Vou te arrumar, mas vai ter que fazer uma coisinha pra mim... Ela nem titubeou. Caiu de boca e mamou muito, só parou quando terminou de beber tudo... Tenho que rir. Como pode? Só pra dar uma! Quem olha essa mina na rua não acredita como ela é doida. Filha de um cara cheio da nota aí. Vejo sempre foto do figura no jornal com a mãe dela. São da soçaite. Tá aí! A filha fica mamando pra dar uma cheirada enquanto os figurões ficam nas festinhas de bacana. Não duvido nada que gostem do produto também... Cara! Chega a ser cômico!

continua



 Escrito por inquieta/vera do val às 12h04 [ ] [ envie esta mensagem ]



Nossa... Acho que vou vazar. Só pode ter dado merda. O negão não ia dar um vacilo desses comigo. O cara disse que ia levar uma meia hora, tô aqui há mais de duas, já passaram vários manjados por aqui. Qualquer hora um desses vem pra me fazer. Porra!

Que frio. Com um monte de noite pra vir nesse buraco, tinha que ter escolhido essa! Toda vez que vejo um vulto dá vontade de correr que nem louco. Péra! Porra é o negão.

- Caralho! Ô maluco!

-Porra negão! Que vacilo, to aqui plantado tem mais de duas horas!

- Foi mal. Não deu pra vir antes.

- E ai! Pegou o bagulho?

- Não rolou.

- Porra!! Não rolou? Caralho negão! Fiquei plantado aqui até essa hora na maior fissura e você nem trás o bagulho! Meu se é doido? Tu cherô não é? Largou teu camarada na mão e cherô tudo sozinho? Porra!!

- To falando! Não rolou meu. Sou teu camarada não ia fazer isso contigo. Os caras embaçaram e disseram que tavam sem, fiquei até agora lá porque talvez chegasse, mas não rolou!

- Mentira nego filho da puta! Porra tô na maior fissura e tu me vem com esse papo!! Você pegou o bagulho com a minha grana e cherô tudo, seu safado! Vou te ferrar, você vai ver!

- Cara, fica na tua meu, tô falando que não rolou, se você engrossar te espeto, porra!! To te avisando caralho! Vai pra lá!

- Negão! Você vacilou! Não vai ficar assim!! Deve tá com o bagulho! Vou tomar essa merda na força!

 O que esse nego tá dizendo?...Que estranho... Parece radio sendo desligado... O volume vai baixando, baixando... É como se eu tivesse em uma viagem de pedra. Tô com vontade até de rir... Porra que frio!...Nossa, que sensação estranha... Não escuto mais o que esse nego tá dizendo... Pra falar a verdade não sinto mais nada.

 

R Alfieri – jovem autor santista, só tem um defeito, é Tricolor.

Imagem - de Niro - Taxi Driver



 Escrito por inquieta/vera do val às 12h02 [ ] [ envie esta mensagem ]



 

 Brinco de miçanga

 

Zé ia passando quando viu o brinco vermelho, pingente de sangue e desejo, misturado nas quinquilharias da banca da Nana. O mercado estava cheio, ele foi empurrando as gentes, se achegando, preso no brilho, tocou com o olho, foi escorregando devagar. Depois aproximou o dedo e titilou de leve, sorriso abrindo a boca desdentada. Tomando confiança segurou a miudeza e trouxe pra mais perto. A cascata de miçangas vermelhas cintilou, o sorriso dele alargou-se. Ofegou, o coração deu um salto, sentiu a boca seca.

Nana deu o preço, ele revirou os bolsos, estendeu o dinheiro para a mulher e quando ela quis embrulhar Zé negou. Nana deu de ombros, cada um com sua querença, não fazia idéia de onde Zé ia com aquele mimo nem que tivesse a quem dar, a coisa não combinava com ele. Vivia por ali, de biscates, diziam que era leso, um dia carregava umas caixas de frutas, no outro desarmava uma barraca qualquer. Não se tinha notícia que ele tivesse mulher, mas essas coisas nunca se sabem e ela já vira de tudo nesse mundo. Tendo dinheiro para pagar o brinco era dele e que fizesse bom proveito

Ele saiu trocando passo, levando o tesouro na mão fechada, de vez em quando parava, levantava a peça contra o sol e folgava jubiloso quando via o relampejar de rubi na transparência dos pequenos cristais. Atrás dele, como sempre, logo se formou o cordão de moleques, aos gritos, mas o homem não percebia nada. Hoje ele não ria e nem brigava, não ouvia a zombaria nem prestava atenção em apupo. Ia andando mergulhado no mundo à parte que o tremelicar do vermelho o afundara, e de mundo à parte Zé entendia, morava em um, onde o riso era fácil e a vida passava sem pressa. Era conhecido em toda a região do porto, desde menino sem eira nem beira, nascido de boto, enjeitado de mãe, motivo de riso, explorado aqui e ali, vivendo sem saber por que ou por onde. Nessa sina dos sem rumo e sem destino ele foi crescendo e juízo nunca lhe fez falta.

Empurrou o papelão que lhe servia de porta no barraco, um buraco que nem bicho visitava mais, mofado pelos cantos, a água da enxurrada lavando o piso em dia de temporal. Mas ali ele morava e fazia tempo. Nas paredes sujas trazia grudadas as capas das revistas que apanhava pela rua, mulheres lindas, rindo com boca carnuda, cabelos de anúncio de xampu, vestidos cintilantes. Colava uma a uma; eram sua família. Conversava com todas, brincava e mangava, não tinha preferida, eram amigas e confidentes. Para a loura ele costumava contar o dia, era a mais curiosa delas, a morena escutava calada, a ruiva, intrometida, logo tinha um palpite a dar. Viviam ali em harmonia, elas presas na parede, ele solto no mundo. Todas sabiam do amor do Zé por Maria do Socorro, o consolavam na hora da tristeza e riam com ele na hora da alegria.  Quando o homem chegou com cara de mistério, um sorriso diferente, parecendo que o mundo era uma nuvem e estava enrolado nela, as mulheres se calaram que hoje ele não queria conversa.

 Zé acendeu um toco de vela, puxou o caixote que lhe servia de cadeira até a mesa perneta do centro do barraco e sentou-se. Prendeu a respiração e abriu a mão devagar. A luz da vela coruscou nas miçangas. As mulheres na parede esticaram o pescoço e se ouviu um suspiro de admiração. Riram excitadas, quem dentre elas seria a favorita? Mas Zé estava surdo. Os olhos presos nas gotinhas vermelhas, a alma voando longe. Maria do Socorro, cunhã menina que ele viu crescer. Lembrava ainda dos tempos em que ela mal lhe alcançava a cintura, quando Etevaldo, o pai, voltava bêbado e armava o bate - boca, Dona Martírio chorava e a palafita tremia. A curuminha assustada se refugiava na casa dele, o barraco era quase vizinho, ele considerado da família, a menina não percebia. Mas o fogo lhe consumia a vida, viu quando lhe cresceram os peitos, caroços de tucumã, que ele acariciava no sonho. Maria menina, de pele macia como terra fofa, com olhos de quem não sabia. Pensou no brinco balançando nas suas orelhas, no cabelo mais preto que a água do Negro, o desejo foi lhe subindo entre as pernas; era veneno que lhe apodrecia a vida.

continua



 Escrito por inquieta/vera do val às 13h30 [ ] [ envie esta mensagem ]



Ali ele ficou até a vela derreter toda, o tremelicar do vermelho nos dedos sujos, o olho luzindo, a cabeça viajando no galope do sonho. Era um voar de passarinho que o coração ia junto atrelado, batia e resfolegava, o brinco tilintava e Zé cambalhotava na idéia, tiritava no desejo e arrepiava no corpo. Via Maria menina, macia e morena, toda nua e oferecida. E ele, pé ante pé que era para não espantar a lembrança do que nunca foi nem nunca vai ser, ia lhe levantando os cabelos, resvalando pelo pescoço e prendendo na orelha aquela cachoeira de sangue.  E quando ela balançava a cabeça a alma dele derretia e ia escorregando toda, luscofuscando perdida, o mundo ia embaçando e a menina virava raio de luz. Como quem reza para o santo com reverência de beato, ele estendia a mão e tentava tocá-la, mas ela sumia, desaparecia, e ele com a mão no ar, vidrado de amor. A lua veio e foi embora, o dia chegou rompendo claro, Zé ali estremunhado. A cabeça caída sobre os braços suados, a mesa perneta, o caixote velho, as mulheres mudas pelas paredes e ele cavalgando o bicho desembestado da sua historia encantada, da sua Maria, morena e macia.

O dia já estava caindo quando ele viu Maria voltando, passou na sua janela, e dali pra dentro foi um pulo. As mulheres na parede, caladas, testemunharam seu riso aberto quando Zé lhe mostrou os brincos. A menina deu um suspiro fundo, o vermelho lhe refletiu no olho e ela estendeu a mão. Zé viu o arfar, o peitinho subindo, as gotas de luz presas nas orelhas, o balançar da cabeça, lágrima de rubi, e quedou-se parado, suspenso no ar, quando a boca rubra e macia lhe deu um beijo no rosto, um obrigada e se foi

 Aquele dia e os seguintes ele desvairou. Via Maria por onde olhasse, com aquelas orelhas tilintando e escorrendo as miçangas, rubi perdido nos cabelos, o sonho lhe deu asas e ele voou. Corcoveou no desejo por Maria menina, santa de andor, macia e nua; via Maria anjo, anjo Maria. Roçava os dedos na sua pele, as orelhas tilintando vermelhas, cascata de pecado e de fogo, fogo que lhe estorricava a vida, febre que lhe queimava as partes, fazia a língua grossa, pegajosa. Maria menina, lhe ardia inteira, cavalo branco escoiceando o corpo, boca de beijo, virgem santa, Santa Maria. No esvair da paixão, peitinho de tucumã, piar de passarinho, Maria batia asas, penugem morena entre as pernas, rios lhe saiam pela boca, cabelos girassóis, dentes brancos muito brancos mastigando a alma, relampejar de vermelho, gota de sangue na orelha.

Uma noite, em que a lua clareava tudo, e o calor alagava os lençóis, Zé acordou com um sussurro, um gemido afogado.  O que era aquilo no meio do mato, que bicho rondava no escuro, lugar de destino pobre não costuma ter dessas coisas. Sem barulho levantou-se, algum vivente estava por perto; com o cabo da faca firme nos dedos saiu e caminhou sorrateiro investigando os arredores. Foi quando viu, embaixo da lua cheia como aparição de visagem, Maria e o namorado, embolados, ela gemia, ele arfava, a menina luzia nua e branca, e o homem se derramava. Zé tiritou e ficou olhando, cabelos de girassóis, peitinho de tucumã, rios vazando da boca, gemidos de ai meu Deus. Saliva de beijo lambido, mãos peludas lhe escorregando o corpo, o mundo partido em dois, duas coxas abertas, fendidas, feridas, dentes brancos muito brancos sua Maria menina, Maria santa, Santa Maria. No debater do arrepio ela virou a cabeça e Zé viu o vermelho, a miçanga tilintando na orelha, cachoeira de fogo e pecado.

Foi tudo muito depressa. A faca entrou macia nas costas do homem. E quando Maria entendeu seus olhos se arregalaram e a língua lhe grudou na boca. Zé delicado e sem pressa, quase pedindo licença, lhe enfiou a faca entre os seios, peitinho de tucumã, cabelos de girassóis, abriu esguicho de vida, sangue e miçanga tremendo, gotinha tremeluzindo, espuma escorrendo entre as coxas.

Maria minha Maria, mistura de anjo menina, peitinho de tucumã, sangue brilhando no peito.

 

Vera do Val

Imagem - Chagall



 Escrito por inquieta/vera do val às 13h22 [ ] [ envie esta mensagem ]



O homem que se endereçou      

 

Apanhou o envelope e na sua letra cuidadosa subscritou a si mesmo: Narciso, rua 13, nº 21. Passou cola nas bordas do papel, mergulhou no envelope e fechou-se. Horas mais tarde, a empregada o colocou no correio. Um dia depois sentiu-se na mala do carteiro. Diante de uma casa, percebeu que o funcionário tinha parado indeciso, consultara o envelope e prosseguira. Voltou ao DCT, foi colocado numa prateleira. Dias depois, um novo carteiro procurou seu endereço. Não achou, devia ter saído algo errado. A carta voltou à prateleira, no meio de muitas outras, amareladas, empoeiradas. Sentiu, então, com terror, que a carta se extraviara.

E Narciso nunca mais encontrou a si mesmo.

 

Ignácio de Loyola Brandão



 Escrito por inquieta/vera do val às 11h05 [ ] [ envie esta mensagem ]



 

Nossa singela homenagem ao dia do Trabalhador

 

 

O MORCEGO, O ASNO E A MULA-SEM-CABEÇA.

 

O Morcego chamou o Asno e a Mula-Sem-Cabeça, animais que segundo seus  gerentes andavam resmungando demais. Plantou-se na sua árvore predileta e, com o quengo voltado para baixo, ajeitou a sua bela capa preta, acendeu um charuto, limpou as unhas com a ponta de um galho seco e assim que os resmungões pintaram nas paradas entrou de sola:

- Vocês estão pensando o quê? Que acho na rua? Que no meu bolso entra mole? Tutu, grana firme, não é sopa não. Dandá pra ganhar tentem. Dinheiro tem que dar duro para conseguir arrumar. Não cai do céu que nem água.

A Mula-Sem-Cabeça ficou meio baratinada e começou a escoicear o paredão. O Asno relinchou um bocado, virou, mexeu, sacudiu o rabo com força, seguidamente, de um lado para o outro, mas ficou na dele.

Dirigindo-se a Mula-Sem-Cabeça, o Morcego prosseguiu:

- Abra os olhos, senhora. Veja em seu redor. Veja o que está acontecendo. Por toda parte guerras, guerras e mais guerras. O desemprego campeia. A carestia está pela hora da morte. Tem sem terra e tem sem teto. A senhora e esse Asno estão empregados. Tão querendo mais o quê? Vocês estão na melhor, na fresca do bem-bom. Ora pílulas, e ainda ficam chiando?

A Mula-Sem-Cabeça arregalou os olhos e, sem saber o que dizer, com ares apalermados, enterrou-os nas fuças do Asno. Este relinchou languidamente, com jeito de quem estava sofrendo intensamente e prestes a explodir, mas conteve-se.

Sentindo-se cada vez mais a cavalheiro, o Morcego manteve a posição de ataque:

- Imaginam que eu sou um burro de carga? No cu, pardal. Eu sou patrão e não vou carregar vocês nas costas.

Foi então que o Asno, enchendo-se  de brios e de coragem, contra-atacou:

– Carregar nas costas? O problema é que somos nós que pegamos no pesado. E o que ganhamos com isso?  Vivemos na maior pindaíba, matando cachorro a pernada e jacaré a beliscão. A maré não esta para peixe. As coisas estão pela hora da morte. Sai lua entra lua e nós com uma mão na frente e a outra atrás. O único aumento que o senhor nós dá é de  trabalho. Chega de chupar o nosso sangue.

continua 



 Escrito por inquieta/vera do val às 23h59 [ ] [ envie esta mensagem ]



Ouvindo aquelas palavras o patrão ficou azucrinado e espumou pelo nariz:

- Escuta seu atrevido, seu ingrato, você está chorando de barriga cheia. Eu devia é dar um bom  chute no meio desse seu rabo imundo e lhe colocar no olho da rua. Ai você ia aprender e ver o que é bom para a tosse.

O Asno abriu a boca e colocou o rabo entre as pernas. Nervosa, a Mula-Sem-Cabeça começou a correr em círculo. O Morcego prosseguiu:

- Na maneira simplória como vocês entendem o mundo, acham que como eu sou rico não tenho problema nenhum. Acontece, belezas, que coleciono automóveis antigos, o cabeleireiro do meu totó fica em Paris, minha amante só usa casaco de pele de lontra e minha mulher  saracoteia o dia inteiro - gastando sem parar. Tudo caro, caro, caro... Chega? Chega, ou querem mais?

- Mas... mas, pelo menos o senhor poderia nos dar um pequeno aumento de salário? – balbuciou a Mula-Sem-Cabeça.

- Sim, pelo menos  um aumento de cinco por cento. A inflação do período já entrou na casa dos dois dígitos há muito tempo. – acrescentou o Asno, enchendo-se repentinamente de coragem.

O Morcego que escutara aquilo palitando os dentes, comentou:

- Vocês não se emendam. Não tem jeito. Cinco por cento é uma baba. Vivem pensando que eu nado em dinheiro. Não adianta explicar, porque vocês são burros. Mas como sou teimoso, vou tentar mais uma vez. Vou ser bem didático. De cada cem reais que recebo, dou a parte do leão – e o leão é guloso. Pego unzinho e pago vocês. Pago atrasado, mas pago. Meto o pau num monte, e vou dizer a verdade: eu gasto bem.  O resto serve para engordar as minhas contas bancárias e aumentar a minha carteira de ações. Dá licença, tenho o direito de fazer o meu pé-de-meia, ou não tenho? Se vocês têm pelo menos um centavo de inteligência,  entenderam bem o que falei. Fui claro? Então  me digam, sobra quanto? Quanto? Ora, é evidente que não sobra nada. Não dá nem para pagar o INSS de vocês, que está pendurado há tempos.

Ouvindo atentamente a tão bem fundamentada  explicação dada pelo Morcego, a Mula-Sem-Cabeça, como se fora uma Vaquinha-de-Presépio, assentiu, balançando a cabeça. O Asno meteu na boca uma porção de capim, mastigou, mastigou, engoliu, e também acabou concordando. 

 

Aluízio Alves Filho  



 Escrito por inquieta/vera do val às 23h56 [ ] [ envie esta mensagem ]



Vou-me embora pra Pasárgada.

- Com licença, Majestade, mais um....

- Como? – o rei salta do trono, quase derrubando a coroa – Você tem certeza?

- Sim, Majestade... - o comandante da guarda abaixa a cabeça compungido. – Acabei de ser avisado por um dos vigias das ameias. Aproxima-se, já dá para se enxergar à distância...

- Mas isso é demais! Um abuso! – o rei se desespera e começa a andar de um lado para outro no salão dourado.  – Demais...

A rainha, impassível, do alto de seus um metro e noventa, não perde a compostura:

- Bem que eu lhe avisei. Ser amigo de poeta dá nisso.

Sua Majestade descabela-se:

- Lá vem você outra vez com essa ladainha.

- Ladainha ou não eu lhe avisei. O sujeito aparece aqui com aquele ar de inocência e você lhe abre as portas. Vai convidando para isso e para aquilo, empresta-lhe sua bicicleta, cede-lhe sua melhor cama, dá-lhe meia dúzia de odaliscas, um pacote de camisinhas, leva para pescar no rio, tomar banhos de mar. Até Iara para lhe contar historias você contratou. Isso para não falar no burro bravo e no pau de sebo. Queria o que?

- E ainda sai dizendo que somos todas prostitutas – diz com voz chorosa a princesa mais nova.

- Mas bem que ele era um pedaço de mau caminho - a princesa mais velha murmura esticando os olhos para o comandante.

- Calem-se, vocês duas. Não foram chamadas para essa conversa – o rei está apoplético - Já me basta sua mãe...

As princesas recolhem-se amuadas.

 - O que faço Majestade? – o comandante da guarda diz baixinho, louco para se safar dali.

- Chame o Primeiro ministro!!!

Como se estivesse a ouvir atrás da porta entra o Primeiro Ministro ajeitando o pincenê no nariz adunco.

- Chamou Majestade?

O rei aproxima-se dele e o toma pelo braço.

- Mais um. O comandante diz que está chegando...

- Majestade, impossível receber mais um. Nossos quartos estão todos tomados, temos poetas, boêmios, andarilhos, sonhadores e malucos saindo pelo ladrão. Por dá – me lá aquela palha resolvem vir para cá. Essa gente toda acha que nossa cidade é a casa da mãe Joana. Aliás, falar em Joana até Joana, a Louca de Espanha, já está reclamando. Sumiram-lhe os urinóis e ela teima que é aquele poetinha cabeludo quem se apossou deles. As despensas estão vazias, o palácio depenado, a Iara vai se mandar, diz que está rouca de tanto contar historias e o burro bravo morreu. Estamos quebrados, Majestade.

- Eu bem que avisei – diz a rainha lixando as unhas.

- Como eu podia imaginar que ele ia fazer essa propaganda danada? Botar toda a historia em versos e espalhar pelo mundo? Virar essa romaria?

A rainha dá de ombros:

 - Ora... Um poeta...

O bobo da corte que até aquele momento ouvira tudo calado aproxima-se do rei e segreda-lhe alguma coisa. Sua Majestade abre um grande sorriso.

- Heureca!!! Se sua idéia der certo ganhará um balde de ouro e será nomeado Conselheiro do Reino!! Chamem os pintores. Depressa.

 

Dia seguinte no grande portão de ferro da entrada do castelo uma enorme tabuleta com letras garrafais:

“Pasárgada mudou-se.”

vera do val



 Escrito por inquieta/vera do val às 01h00 [ ] [ envie esta mensagem ]



 

Monólogo de Jasão ao abandonar Joana - GOTA D`ÁGUA

  

Você é viagem sem volta, Joana. Agora eu vou contar pra você sem rancor, sem sacanagem, porque é que eu tinha que te abandonar. Você tem uma ânsia, um apetite que me esgota. Ninguém pode viver tendo que se empenhar até o limite de suas forças, sempre, pra fazer qualquer coisa. É no amor, é no trabalho, é na conversa, você me exigia inteiro, intenso, pra tudo, caralho...

Tinha que olhar pro céu pra dar bom dia, tinha que incendiar a cada abraço, tinha que calcular cada pequeno detalhe, cada gesto, cada passo, que um cafezinho pode ser veneno e um copo d`água, copo de aguarrás, Só que, Joana, a vida também é jogo, é samba, é piada, é risada, é paz.

Pra você não, Joana, você é fogo. Está sempre atiçando essa fogueira, está sempre debruçada pro fundo do poço, na quina da ribanceira, sempre na véspera do fim do mundo.

Pra você não há pausa, nada é lento, pra você tudo é hoje, agora, já, tudo é tudo, não há esquecimento, não há descanso, nem morte não há. Pra você não existe dia santo e cada segundo parece eterno. Foi por isso mesmo que eu te amei tanto, porque, Joana, você é um inferno.
Mas agora eu quero refresco, calma, o que contigo nunca consegui, nunca, nem um minuto. Já com Alma é diferente, relaxei, perdi a ansiedade, ela fica ao lado, quieta e a vida passa sem moer gente.
Essa é a verdade, esse é o motivo da separação, só quero sossego e tranqüilidade.

 

Chico Buarque - Adaptação da Medéia de Eurípedes - 500 a.C

(gentileza Amanda Pellegrino)

Imagem – Waterhouse – Jasão e Medea

 



 Escrito por inquieta/vera do val às 11h44 [ ] [ envie esta mensagem ]



 

18/04: ANIVERSÁRIO DE MONTEIRO LOBATO E DIA DO LIVRO INFANTIL

 

 

José Bento Monteiro Lobato, nome que pela marcante presença na vida pública, empresarial e literária brasileira, dispensa qualquer apresentação, nasceu em 18 de abril de 1882 na cidade paulista de Taubaté. Em sua homenagem comemora-se na data do aniversário de seu nascimento o dia do livro infantil, especialidade em que ele mais se consagrou.

            Fazemos uma singela homenagem à memória de Monteiro Lobato, na passagem de seu natalício, relembrando um entre os muitos dos primorosos diálogos que, o pai do Jeca e da Emília, escreveu. No trecho a seguir reproduzido, extraído d’O Casamento de Narizinho”, Lobato mistura imaginação, o sonho e fantasia:

            “- Mas quem é que fabrica esta fazenda, dona aranha? – perguntou... (Emília)

            - Esta fazenda é feita pela fada miragem – respondeu a costureira.

            - E com que a senhora a corta?

            - Com a tesoura da imaginação.

            - E com que agulha a cose?

            - Com a agulha da fantasia.

            - E com que linha?

            - Com a linha do sonho”.

            Diálogos primorosos, reafirmamos . Diálogos  que nada ficam a dever aos melhores escritos de Lewill Carrol, o genial e consagrado autor de Alice no País das Maravilhas. Carrol, considerado papa do “realismo mágico”, faz o sonho soar como realidade (pesadelo). Monteiro Lobato coloca o sonho e a  realidade num mesmo plano, e o faz com tal maestria que por vezes é impossível diferenciá-los em sua prosa. A respeito, na Abertura do “Picapau Amarelo”, escreve: “o que existe na imaginação de milhares de crianças, é tão real como as páginas deste livro”.

 

                                                                                              Aluizio Alves Filho

 

 

                                



 Escrito por inquieta/vera do val às 23h49 [ ] [ envie esta mensagem ]



Mardeley 

Mardeley, diz a placa de madeira gasta, exposta ao tempo e ao descaso, já sem verniz, se é que um dia conheceu algum. Finalmente consegui chegar. A estrada de terra, menos estrada do que terra, com suas crateras coalescentes feito superfície lunar, termina às portas de uma pequena cidade de casas humildes em torno da praça central. Os postes ainda estão acesos, embora o sol à meia altura ofusque o desperdício de eletricidade. Mardeley, justo como em meus sonhos, o lugarejo que eu, deitado em minha cama, esperava encontrar quando o sono me buscasse, e, noite após noite, nunca acordava decepcionado. Ainda que esta poeira jamais tenha sentido o peso das minhas botas ou empedrado meus pulmões, eu saberia dizer precisamente onde fica a barbearia, onde senão na casa 121 da segunda rua à esquerda, ou o armazém de secos e molhados, no terceiro quarteirão da via principal, abaixo do sobrado onde mora o prefeito, e o banco defronte ao coreto.

O portal me dá as boas vindas, eu agradeço e vou entrando. Não adianta apenas saber, por instinto ou premonição, onde está cada coisa; é preciso conferir, bater às portas e certificar-me de que na casa que julgo do confeiteiro mora de fato o confeiteiro, e não o vigário ou o juiz de Direito. E, sobretudo, encontrar Mardeley, a mulher de cabelo de fios de ovos e sorriso de jambo, vermelho e doce, mas amargo se colhido fora da época. Pois agora, eu sei, é tempo de colheita, e para isso eu errei por asfaltos e barros e lamaçais, guiado por um mapa escrito com a tinta invisível do subconsciente. Com passos calculados, nem tão largos que denote pressa, nem tão curtos que eu tarde a chegar, avanço em direção ao centro.

Mardeley, a cidade, existe; Mardeley, amante das noites solitárias, também há de existir. Seu endereço, contudo, sempre envolto em densa névoa, refém ainda nas masmorras do Senhor dos Sonhos, terei de procurar.

Olá, Sr. Boticário, chamo a figura de longo bigode retorcido sob um nariz que, tão pontiagudo, ameaçava fugir da face desenhada a compasso, de uma calçada a outra, e, cruzando a rua para falar-lhe mais de perto, ouço um espantado Quem é você. Não me reconhece, estranho; mas lembro que o sonho fora meu e decerto ninguém ali sabe mesmo quem eu sou.

Espere um instante, volta-se o homem, pensativo, a mão no queixo, com ar de quem procura com afinco recordar-se de um passado há tempos subtraído da memória, o senhor não é... É o senhor, tenho certeza, o ladrão que me levou uma filha! Descontrola-se o boticário, já quase, com o dedo em riste, me furando as maçãs do rosto. Como tem coragem de voltar aqui depois de tudo que me causou?

Perdão, meu senhor, tento responder, mas é minha primeira vez nessas paragens e não sei quem é sua filha. Não deixo de lhe dar razão, contudo, quando, com um profundo senso de lógica, me pergunta Pois então, estrangeiro, como me conhece e sabe que eu sou o boticário? Mardeley é o nome da minha filha, e o senhor a levou embora nas costas como a um saco de batatas. Como esquecer do homem que desonrou minha família? Onde ela está? O que o senhor fez com Mardeley?

Mardeley, ouvir o nome referindo-se à mulher, em lugar da cidade, me ilumina o coração. Eu a amo, Sr. Boticário, desde o início do tempos, desde antes da primeira fagulha explodir em big bang, e ofereço o resto de meus dias a Mardeley, todos, até que o universo se contraia em uma casca de noz. Nada do que eu falo parece surtir efeito naquele velho homem de cabelos grisalhos de apreensão, mais temeroso que violento; nada o impede de pegar o revólver da cintura, e eu sequer tinha reparado no volume sob a camisa axadrezada, e faça uso dele contra o meu peito. Grito por socorro, que não atire, pelo amor de Deus.

Assustado, acordo. Um estranho cheiro de fios de ovos estragados atravessa a atmosfera pesada do quarto e chega ao meu nariz ao ritmo das várias voltas velozes do ventilador. Bocejo, as lembranças do sonho ainda ressoam entre as circunvoluções do meu cérebro, e procuro de onde vem o odor nauseabundo. Mardeley, ao meu lado, meu amor, acorda, não pode ser verdade, o que houve, responda, por favor, jaz vermelha feito jambo, mas queimado, a pólvora ainda a se fazer sentir no ar.

Flávio Moutinho



 Escrito por inquieta/vera do val às 09h08 [ ] [ envie esta mensagem ]



Duelo

 

O meu olhar é uma manta e, por favor, me diga que está com frio.

“Calor, não é?” Eu morria; meu reino pelo vestidinho.

“Pois é. É calor que não acaba mais!” Foi o máximo que todo o meu maquiavelismo galanteador conseguiu naquele momento. Já não sabia se o calor vinha do sol ou se eu realmente tinha olhos flamejantes. Eu amava e queria desaparecer. Não lembro muito bem quanto tempo, mas fiquei ali, e o silêncio também ficou, como um barulho ensurdecedor. Eu queria dizer da beleza das mulheres, de como é bom ser homem para amar as mulheres e que ela era a mulher das mulheres. Mas disse da chuva que chegaria ainda de noite. Era então melhor desistir de tudo. Despedi-me decidido. Tinha compromissos, trabalhos, estudos, deveres, promessas, podia chover. Não consegui sair do lugar.

“Você vai, ou não?”, perguntou ela, impaciente e alegre, olhando-me nos olhos, um sorriso de escárnio, e as mãos na cintura. Era tudo só para mim.

“Vou”, hesitei decidido.

“Então, até mais!”, e me deu um beijo cheio na bochecha que eu não esperava, ela não esperava e eu morria de novo. A minha cabeça mal tinha processado a informação direito e quando alguns segundos depois ela chegou, chegou com tudo. Era alerta vermelho e o corpo pulsando, um circo dos horrores, e eu ainda sentia a umidade fresca dos seus lábios na minha face. Devo ter feito a cara mais estúpida do mundo.

“Nossa! Sou tão assustadora assim? Que horror!”

Mais uma morte. A terceira em só um minuto. Era beleza demais. Uma faca no coração. Disse o que veio:

“Desculpe, mas você é linda!”, arrisquei. E fui embora marchando como um soldado, eu me sentia um máximo, meu reinado reergueu-se, eu escondia o medo. Não queria olhar de novo para ela, não devia olhar de novo para ela, mas olhei. Voltei como um pateta:

“Ah, já ia esquecendo...”, e ela me olhou com desprezo, do jeito que as mulheres olham quando amam e odeiam, “... isso aqui é para você”, surpreendi.

Ela iluminou-se: “Para mim? Um presente? O que é?”

“Não é nada demais”, menti: para mim era tudo.

“Ah, é um conto?”, disse ela meio na dúvida.

“É. Acho que sim. Eu fiz ontem a noite”.

“Para mim?”, ela exigia garantias.

“Claro”.

“Duelo”, leu o título em voz alta.

Eu disse que era dela, que ela lesse depois. E como nem um pouco boba que é ela perguntou se era um duelo de amor ou de morte.

“Tanto faz, acho que dá na mesma”, foi o que respondi.

“Então é um duelo de palavras?”, sugeriu.

“Talvez. Mas não só de palavras”.

“Obrigada”, ela sorriu, olhou ternamente para mim, dobrou com carinho o papel e guardou na bolsa. Era um charme precioso. E tudo aquilo só para mim. Nos despedimos de novo, desta vez muito naturalmente. Eu fui indo embora, não como um soldado, e também sem nada de reinado. Disse que não se preocupasse: era só um conto, nada mais.

Ela sorriu maliciosa: “E nada mais?”

Não precisei responder. Fui com o vento pela rua. Começava a chover. Era só um conto, mas mesmo assim doía.

Marcelo Neder Cerqueira

Imagem - Chagall



 Escrito por inquieta/vera do val às 19h09 [ ] [ envie esta mensagem ]



O CRAQUE, O JUIZ E A BOLA

 

A bola estava lá, na marca, pronta para levar uma pregada. Havia chegado a hora da onça beber água. Empurra daqui, empurra acolá, sua excelência, o árbitro da partida, rodeado por braços e pernas, tenso, levando peitadas e ameaçando puxar o cartão fatídico para expulsar de campo algum reclamante mais atrevido. O nervosismo era geral, os torcedores gritavam coisas desencontradas. No meio da galera, com uma latinha de refrigerante entre as mãos, eu assistia a partida como quem está se refestelando num camarote. Queria ver o circo pegar fogo. Pensei: “Que se dane o avião que não sou piloto, meu time não está jogando”. O placar em branco, trinta e tantos do segundo tempo. Aquele pênalti poderia decidir o campeonato. O mano me arrastara para o estádio. Ele e meu sobrinho. Ambos são fanáticos pelo time beneficiado por aquela decisão de sua excelência. O garoto pulava, vibrava. Já deglutira uma meia dúzia de sorvetes. O mano, com a mão gelada, puxou-me pelo braço e sussurrou no meu ouvido, suplicando que eu concordasse: “Foi pênalti, não foi?”. Sem muita convicção, apenas por solidariedade familiar, tranqüilizei-o: “Claro que foi pênalti”. Não estava muito ligado no jogo, devo dizer a bem da verdade. Em sã consciência não sei dizer se concordava ou não com aquela marcação do árbitro da partida.

No campo, o bafafá aumentava e parecia não ter fim. Indiferente ao reboliço, a bola continuava sozinha e esquecida, plantada na marca fatal. O juiz também estava só. Tão cercado e acuado quanto só, com os cabelos desgrenhados e gesticulando sem parar, como quem estivesse se defendendo de uma culpa que não tinha. Tive pena dele, ou melhor, tive pena da mãe dele, ao ouvir o que a torcida do time punido com a falta máxima gritava em coro.

Foi no auge daquele alvoroço que relacionei o juiz e a bola. Os dois estão sempre solitários, no meio de multidões enlouquecidas. Ernest Hemingway relacionou o velho e o mar; Érico Veríssimo, o tempo e o vento; Stendhal, o vermelho e o negro. Os três produziram obras-primas! Muitas outras relações já foram feitas, mas acho que não houve quem tenha relacionado o juiz e a bola. O mano pediu novamente o meu socorro: “porque esse juiz não aplica logo o cartão vermelho? Você está vendo o que o zagueiro deles está fazendo? Isso é um absurdo”. Dessa vez eu nem precisei assentir. Não deu tempo. Meu sobrinho começou a gritar: “Bota pra fora! Bota pra fora!”.

continua



 Escrito por inquieta/vera do val às 03h02 [ ] [ envie esta mensagem ]



Dei uma boa saboreada no refrigerante e, alheio à ansiedade geral, afundei na minha reflexão. No mundo do futebol é comum o estabelecimento da relação entre o craque e a bola. Há um conjunto de ditados futebolísticos que relacionam o craque e a bola. “A bola gosta de ser tratada com carinho”; “A bola obedece quem a trata com carinho”; “A bola procura quem a trata com carinho”; “Craque sabe tratar a bola”; “A bola procura o craque”; “Quem é craque faz o que quer com a bola”. São variações sobre o mesmo tema. Esses ditados, e outros do mesmo naipe têm a pautá-los valores de uma sociedade machista. Simbolicamente, ser craque é ser macho, a bola simboliza a fêmea. O segredo do craque (do macho), para poder exercer domínio sobre a bola (a fêmea), consiste em saber tratá-la com carinho. Em contrapartida, a bola o procura, o obedece e satisfaz-lhe à vontade. O craque deve tomar cuidado, pois em analogia ao que se diz sobre a mulher, diz-se que a bola é caprichosa e que existem algumas que são traiçoeiras, outras venenosas. Coloquialmente, chama-se a bola de “nega”, e já ouvi quem se referisse a ela com “Leonor” ou “gorduchinha”.

Nessa altura dos acontecimentos o gramado fora invadido. Havia cartolas, policiais, repórteres, torcedores e o diabo-a-quatro para tudo quanto é canto. O mano protestou: “Isso é uma zorra”. Levou as duas mãos a boca e gritou: “Soprador de apito, vai mandar bater o pênalti ou não vai?”.

Por qualquer “me dá cá aquela palha” o juiz é xingado de soprador de apito. O juiz é perseguido o tempo inteiro, a bola é a perseguida. O juiz entra em campo impoluto, ladeado por dois fiscais de linha e com a gorduchinha debaixo do braço. Não se escutam aplausos quando o juiz chega, nem para ele nem para a bola.O juiz é o guardião da bola, deve entrar e sair com ela. Mas quando o jogo começa, há um divórcio entre o juiz e a bola. O juiz é o único que não pode chutar, controlar, passar ou cabecear a bola. Ele não pode tocar na bola. Entretanto, em todo o desenrolar da partida, parece-me, o juiz e a bola continuam unidos. De que maneira? Pela solidão, como o velho e o mar de Hemingway. Ninguém torce pelo juiz, ninguém torce pela bola. Ninguém vai ao jogo por causa do juiz ou por causa da bola. Vibra-se com a jogada, não com a bola. Vibra-se ou chora-se por causa do gol, não por causa da bola. Perde-se por culpa do juiz, dá-se azar por causa da bola. O torcedor nunca admite que seu time ganhou por causa do juiz ou que foi ajudado pela bola.  Quando ela ajuda, batendo no chão da área, enganando o goleiro adversário e indo morrer no fundo das redes, o torcedor diz que foi obra do “montinho artilheiro”, não da bola. Quando ela pega um efeito estranho, descreve uma curva elíptica e, não se sabe como, entra no gol por onde a coruja faz o seu ninho, o mérito não é atribuído à bola, mas ao “sobrenatural de Almeida” (como dizia Nelson Rodrigues) ou, então, aos deuses do futebol. “Tio, quer um picolé?”. Disse de repente o meu sobrinho. Com o indicador da mão direita apontado para cima respondi que não, mas pensei com os meus botões: “Puxa vida, do jeito que gosta de sorvete esse garoto vai virar uma bola. Só de coco já chupou quatro”.

Em todas as dependências do estádio, com velocidade similar a das idéias que invadiam a minha cabeça, a confusão proliferava. O mundo é uma bola. Tudo gira em torno de uma bola. Será que a bola pensa? Será que ela sabe o que faz? E o juiz, sabe? Como é que ele, pressionado por todos os lados, pode decidir em fração de segundo?  O mano interrompeu bruscamente o conjunto das minhas indagações metafísicas, ao puxar novamente o meu braço e comentar: “É agora, é agora. O pênalti vai ser batido”. Meu sobrinho desabafou: “Não quero nem ver”.

Recompus-me rapidamente. Grudei os olhos na cena. O juiz fez as últimas recomendações. O goleiro, um varapau do tamanho de um bonde, ficou sacudindo os braços que pareciam asas. Meu sobrinho disse: “Vou fechar os olhos. Fiz uma promessa, se for gol vou ficar seis meses sem tomar sorvete”. O craque encarregado da cobrança bateu como manda o figurino: bola para um lado goleiro para o outro. A desgraçada saiu sorrindo, bateu na quina esquerda da trave, saltitou e voltou para a grande área. Um zagueiro deles entrou voando e encheu o pé, mandando-a para as nuvens. O garoto protestou (acho que fechara os olhos e não vira nada): “Juiz ladrão! Invadiram a área. Pai o juiz tem que mandar repetir a cobrança”. Muito vermelho e desapontado o mano encontrou forças para tentar consolar o filho, dizendo entre dentes: “Quando a bola não quer entrar, não adianta chutar, ela não entra”. 

Aluízio Alves Filho



 Escrito por inquieta/vera do val às 03h01 [ ] [ envie esta mensagem ]



De corpos e copos

As garrafas vazias já se juntavam sobre a mesa cambaia do boteco. Juarez  gorgolejava. Falava sozinho,murmurava, gemia . Dava soco na mesa ... Filha da puta...

Marinete estava lhe pondo chifres! Disso não podia fugir, disfarçar que não era com ele. Só idiota não via que ela estava mudando. Antes era toda atenta, o dia todo em volta dele, servindo aqui e ali, cama e  mesa, o feijão especial, temperado  ao seu gosto, as camisas impecáveis , passadas a ferro com carinho. A noite então nem se fala, dor de cabeça não  era com ela. Bastava ele dar uma fungada e ela se abria toda, rio-mulher, correndo ao seu encontro, mel nas profundezas. Gemia e gritava como ele gostava e se ele quisesse mais não se fazia de difícil.

Ele mandava e ela obedecia. 

De uns tempos para cá estava diferente. Andava distraída. Quando ele chegava, ao fim do dia, o sorriso lhe parecia um pouco falso, como se não estivesse à vontade. Isso quando estava em casa, por que na maioria das vezes ele chegava e nada dela .... Filha da puta ...Tinha sempre uma história na ponta da língua. Hoje tinha se atrasado no trânsito, ontem foi o supermercado. E quando ele ia para a cama ela enrolava, sempre tinha ainda alguma coisa por fazer.... Maldita filha da puta...

Era o vizinho. Um safado cheio de sorrisos, doutor, metido a besta. Pensavam que ele era idiota. Tinha percebido o telefonema dele e como ela ficou aflita. De olho viu quando anotou alguma coisa, um endereço talvez. A vagabunda iria se encontrar com amante e o corno era ele .... vadia... Outro dia saíram do elevador juntos. Ele bem que viu a cara dela. Estava nervosa, aflita, cara de culpada.

O garçom, já preocupado, o aconselhou... Vai pra casa doutor... já bebeu demais ... Ele nem ouviu, enfezado, falando sozinho... Vou meter uma bala na cabeça dele.... em mim é que não  põe cornos ... e acariciava o revólver guardado na cintura. 

Na delegacia os colegas diziam que ele estava estranho. Onde o policial  atento? Eles brincam com fogo... mais um, menos um não me faz a menor diferença... E pediu outra garrafa. Matava bandido e matava doutor também... pouco me importa se é figurão ou não... que não me ponha cornos... E ficava imaginando Marinete gemendo para o outro...

 

Marinete suspirou. O vizinho era gentil. Vinha sendo atencioso desde que se conheceram. E ela confiava nele. Todas as tardes ele a recebia no consultório. Sempre aconselhando... Diga a Juarez, Marinete, ele vai entender...  A hora de contar a Juarez  tinha chegado. Ela sabia que ele iria sofrer. Conhecia bem o marido,  não ia se conformar com uma separação. Fechou os olhos imaginando a cena. Tanto tempo! Pobre Juarez... Depois  de cinco anos de casamento...

O garçom já estava preocupado. Juarez era cliente antigo, sempre estava por ali, dava uma proteção ao bar a freqüência da policia. Mas hoje estava transtornado. Bebera demais e sozinho. Grunhia ameaçador. Viu quando  se levantou cambaleando e se dirigiu a saída.

Mato o canalha... Sem um ai... Engatou a marcha e saiu rangendo os pneus. Estava completamente bêbado e a arma lhe queimando o corpo. Depois haveria de se perguntar como conseguira chegar até o prédio onde o outro trabalhava.. Estacionou o carro ao meio fio e respirou fundo. Foi quando viu Marinete saindo apressada, cabisbaixa,dando até logo ao porteiro, já intima da casa....Cara de culpada.... A filha da puta...

Enquanto ela sumia na esquina ele desceu. Na porta foi sem perguntas, afinal o uniforme impunha respeito. O nome do calhorda estava lá, quarto andar, fulano de tal, médico. Entrou sem bater, fim de dia o doutor já não atendia mais. Estava sozinho. Olhou surpreso, não teve tempo de esboçar um sorriso.

A bala lhe perfurou a testa.

Marinete preparou o jantar. Já não podia esconder a verdade de Juarez. Não sabia mais fingir e se sentia enfraquecer a cada dia. O doutor tinha razão. Era inevitável e ele sabia o que dizia, era sua especialidade. Tinha sido gentil, o mais que podia. Mas nada nesse mundo poderia alterar o diagnostico. O câncer estava galopante, nem cirurgia resolveria  mais.

Vera do Val

Imagem S Dali



 Escrito por inquieta/vera do val às 13h58 [ ] [ envie esta mensagem ]



Álbum de família

Minha bisavó, Joaquininha- 1881



 Escrito por inquieta/vera do val às 16h38 [ ] [ envie esta mensagem ]